Sobre complexo de Lolita e mais sororidade

Textos

Eu sei que é já é velha essa, o caso daquele cara de barba colorida do BBB que diz gostar de adolescente (efebófilo, como ele responde, a tom de piada, um comentário em uma postagem sua, que o acusa de pedófilo) e que com isso mostrou como nossa sociedade sexualiza precocemente as meninas. Para quem não sabe do circo todo, vou dar uma resumida: esse dito cara, já com seus cinquenta e tantos anos, disse na casa que tinha namoradas menores de idade, além de fazer gestos obscenos incitando sexo oral para as outras participantes do reality. Deu no que deu, uma das mulheres, não aguentando mais toda a situação, decide dar um basta quando vê o mesmo de cueca, como quem não quer nada, no seu quarto. Grita e esbraveja, enquanto ele, com ar de desprezo, continua deitado, se fazendo de desentendido. Resultado mais que esperado, a mulher é crucificada e tachada de “louca, desequilibrada e chata” enquanto ele sai de vitima. Sai literalmente, já que foi eliminado do programa. Mas, ironicamente, ou não, apesar da sua eliminação por conta dessas atitudes, foi chamado para um tal programa matutino onde foi acolhido como mártir. Afinal, qual é o problema em preferir meninas jovens?

Posso responder isso com o argumento que o próprio usou, para justificar sua preferencia por adolescentes: elas aparentam inocência.

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Lolita, filme de 1997

E qual o problema nisso? Bom, inúmeros, mas principalmente, o fato de que, dada a inocência e falta de experiência, se torna mais fácil manipular, e até mesmo moldar ao seu bel-prazer essas meninas. E os caras sabem disso.

Uma mulher adulta sabe o que quer. Sabe o que não quer. Uma mulher adulta já tem sua personalidade formada. A adolescente? Está em processo de construção. A adolescência serve pra isso mesmo, construir uma personalidade pra chamar de sua. Não seria, nesse raciocínio, de extrema falta de moral e até mesmo covardia, um homem adulto, se aproveitar desse momento delicado para entrar em um relacionamento com a menina? Logo por ser mais fácil de convencer ao sexo? Aos seus caprichos?

Isso acontece mais do que se imagina. Aconteceu comigo, aconteceu com alguma amiga sua. Pode ter até acontecido com você.

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Entendam, a questão não é que o seu relacionamento ou o de alguma conhecida, com uma grande diferença de idade deu certo. Não estamos aqui para discutir as exceções, e sim a maioria. E acontece, que isso é problemático.

A palavra – chave “novinha” tem o maior numero de buscas em sites pornográficos. O fetiche de “colegial” ainda é um dos preferidos de muitos homens. A sociedade considera a adolescente de catorze anos pronta para decidir sua vida sexual como adulta, mas lógico, que considera em teoria, pois tão logo condena a mesma quando isso acontece. E mais, quando um adulto faz sexo com uma adolescente, adivinhem só, para quem vai toda a responsabilidade da culpa?

Agora, antes que digam, que adolescente sabe muito bem o que está fazendo, me respondam essa sem hipocrisia: quem, aos catorze, quinze anos, era tão iluminado e sensato para saber exatamente o que estava fazendo e as consequências? Aos que usam a justificativa de que “sabiam muito bem o que faziam” eu respondo dando mérito aos pais, ou seja lá quem criou essa pessoa. Ninguém, aos catorze anos, é um ser tão sábio que saiba exatamente, com causa e consequência, o que está fazendo. Tem gente que com vinte cinco ainda não sabe pelo visto. Devemos exigir esse discernimento do certo e do errado, bem apurado, dos adultos, e não de meninas que ainda estão no ensino médio.

Agora, um caso que presenciei esses dias numa pagina feminista do facebook. Uma matéria a respeito do caso desse cara que se diz efebófilo, cheia de comentários. Comentei e uma menina veio me alertar que o cara poderia muito bem me processar. Deixei de lado. Passaram coisa de cinco minutos e tinham pelo menos uns sete comentários atacando essa menina com inúmeras ofensas. A mesma menina, pelo que deu a entender, defendia a integridade dele, logo porque vivia um relacionamento com grande diferença de idade que dava certo. Mais ofensas foram cuspidas na menina. Aí, parei, olhei tudo aquilo e me perguntei: cadê a sororidade, gente?

Pelo que entendo de sororidade, não é xingar a menina que discordou com a sua amiga. E sim, chegar nessa menina e falar: olha, não é bem por ai isso que tu falou não. Se eu estiver errada, me corrijam.

Eu entendo, que pra acessar a internet, junto deveria vir uma caixinha de Rivotril, e que não é todo dia que a gente vai estar exalando tolerância e amor ao próximo. Mas de todas as onze respostas a menina, não vi ninguém se propondo a explicar e desconstruir a coleguinha. Uma ou outra, em outras respostas a outros comentários, tentavam explicar com paciência. Tentei remediar toda aquela metralhação de ofensas explicando o porquê da minha opinião para ela também. Mas a maioria zoava. Ofendia. Criticava. Ninguém nasce desconstruidona não. Entendemos que a ignorância e teimosia alheia ás vezes não tem limites, mas devemos nos esforçar para ter mais paciência sim.

Temos que ter em mente que a atitude agressiva segrega. Imaginem chegar num grupinho, e falar algo, sem a intenção da maldade, por pura ignorância talvez, e serem ofendidas ou tratadas com ironia. Soa bem ruim, não? Devemos sempre nos por no lugar uma da outra. Eu já acreditei um dia que não existia nada de errado em relacionamentos entre adultos com adolescentes. Já acreditei que mulheres não podiam ser amigas. Já acreditei em um monte de coisas que muitas meninas, criadas reproduzindo um discurso machista, ainda acreditam. Nosso dever é desconstruir esse machismo. E não excluir essas meninas. Mas e se a menina estiver oprimindo? Opressão não se responde com opressão. Mas também não se responde com toda essa calma quase tibetana. A questão é que temos muito o que aprender umas com as outras. Ainda tenho muito a desconstruir em mim mesma. Assim como essa menina e as moças que a ofenderam.

Em terra de internet quem mantém a calma é rainha, e quem pratica sororidade sem perder as estribeiras é deusa.

Mariana
POR Mariana

19 anos, estudante de jornalismo e cosplay da Sandra Annenberg nas horas vagas que gosta de filhotinhos, riot grrl, resenhas musicais, estampas florais e falar de si mesma na terceira pessoa.