Sobre cinema e depressão

Filmes

Já venho lidando com a depressão há alguns anos. Às vezes acho que já me acostumei, mas é difícil saber. Posso dizer que já tenho alguma vivência nessa área. Também já fui forçada a ler muitos livros pra entender a minha própria cabeça. Mas o que sempre me chama mais atenção é o cinema. É como se eu pudesse ver o que eu sinto. E o que eu vejo é sempre bonito.

Estar deprimida é tudo, menos bonito. É basicamente o contrário. Parece que tudo perde a cor. Eu não tinha vontade de sair da cama, então pegava o notebook e ia baixar uns filmes pra ver se passava a vontade de dormir o tempo todo.

Scarlett Johansson em Lost in Translation

Scarlett Johansson em Lost in Translation

Lembro de quando assisti Lost in Translation pela primeira vez. Os sentimentos da personagem interpretada por Scarlett Johansson são reais. Sozinha, entediada, com saudade de casa. É um filme lindo. Os filmes da Sofia Coppola sempre vão te fazer sentir algo. Marie Antoinette é o paraíso da estética. Aí chega The Virgin Suicides. A mesma coisa. O filme é bonito demais. É glamurizado. A dor das irmãs suicidas é bonita. Os pulsos cortados de Cecilia são cobertos por várias pulseiras coloridas.

Margot Tenenbaum, por exemplo. Gwyneth Paltrow está impecável em The Royal Tenenbaums, filme do Wes Anderson. Linda, maquiada, misteriosa, tem roupas bonitas e até toca música da Nico quando ela aparece. Mas estar deprimida, muitas vezes, não significa ficar fumando na banheira enquanto pinta as unhas e fala pelo telefone com um tom apático. É uma personagem que eu amo, posso até me identificar, mas nunca será uma interpretação precisa de como é ter uma doença que te impede de sair do quarto.

Margot Tenembaum

Margot Tenenbaum

Uma vida com depressão não é um filme do Wes Anderson.

Uma garota com depressão não vai ser parecida com a Léa Seydoux em La Belle Personne.

Uma garota com anorexia não vai formar uma banda e sair cantando por aí como a Emily Browning em God Help The Girl.

(E encontrar o amor da tua vida não vai melhorar tudo. Isso é pra ti, Freddie Highmore em The Art of Getting By.)

Enfim. O que podemos aprender com isso é: mesmo que passar por isso não seja bonito, o final da história pode ser. Pega a tua experiência e transforma em arte.

Esses filmes não deixam de ser alguns dos meus preferidos. Mas não são muito reais. Cê não vai virar uma Manic Depressive Pixie Dream Girl. Ficar uns 3 dias presa na cama sem tomar banho e sem comer é mais provável. Não é nada bonito. Não é um filme indie com trilha sonora do Arctic Monkeys. Mas a gente lida com isso do jeito que for melhor. Se tu achar que cantar músicas bonitinhas usando uma roupa suuuper vintage e preppy vai te ajudar, bom pra ti. Vai em frente.

Lua Haeser
POR Lua Haeser

Ama Twin Peaks, esmalte com glitter, Monet, e riot grrrls. Quer ser uma cantora yé-yé em um filme do Gregg Araki.

  • congratulations guy

    Belo post, mas deixe os cigarros de lado…

    • Christian Kaisermann

      Tipassim, isso não seria uma escolha….dela? :)

  • Eduarda Ribeiro

    Já pensou em sei lá, tentar seguir na área tentando fazer algum filme sobre a sua vivência? Dando representatividade para as meninas? Acho que seria interessante, eu com certeza veria! Parabéns pelo texto, já anotei alguns filmes que ainda não vi. Grata!