Transição capilar: empoderamento através da estética

Comportamento

Desde muito pequena eu descobri que eu era diferente de outras meninas. Eu brincava com elas, corria, pulava, ria, mas eu era diferente. Não entendia o porquê de me sentir daquela maneira. Com o passar dos anos o sentimento aumentava. Eu não sabia o motivo, mas não gostava de ir pra escola de cabelo solto. Era diferente. Eu sempre surgia com uma trança assim, um rabo de cavalo de outro jeito. Até que um dia soltaram a ideia: “Por que você não alisa o cabelo?”. Como assim? Alisar? O meu cabelo? Mas por quê? E desse jeito descobri: eu era diferente das outras meninas justamente por não me parecer com elas.

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Eu sempre gostei de estilos alternativos, de andar arrumada, de me cuidar, de cuidar do cabelo. Pintava as pontas de colorido, me curtia. Mas ainda assim não me sentia pertencente do mesmo espaço das minhas amigas. A família não apoiava, eu chorava, já não gostava de me olhar no espelho, alguns caçoavam da minha aparência, mas consegui convencer minha mãe o dia chegou: três horas demoradas sentada na cadeira do salão de beleza e um cheiro forte me separavam do liso impecável. O sentimento de ver que o meu cabelo já não era indesejável era imensurável – apesar de custar bons R$ 300,00.

Tempo vai, tempo vem, os elogios surgiram – Ah, cê tá muito mais bonita assim! – mas o peso a se pagar era alto. E nem falo em dinheiro, mas na essência. Eu havia deixado pra trás toda minha raça, minha negritude, minhas características. Eu havia me embranquecido. E isso a televisão, os jornais, as revistas, eles fazem por nós. Foram três longos anos de chapinha, secador, puxar ali, esticar aqui, esconder a raiz. A raiz que surgia a cada dois meses não me fazia esquecer: aquilo ali não era meu. Quando me dei conta comecei a procurar inspirações em mulheres, meninas, que eram tão diferentes quanto eu.

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Boxbraids – estilo e resistência de mulheres negras

O processo de abandonar a química capilar é chamado de transição. Você entra em transição quando entende que o que é seu é seu e é lindo e, então, decide parar de usar qualquer modificação no seu cabelo. Esse processo é demorado e é um desafio na nossa autoestima mas existem alguns jeitos de lidar com ele. O primeiro é buscar inspirações. Em sites como do Afropunk podemos ver milhares de negras com estilo pra dar e vender, com cabelos maravilhosos de todos os jeitos e cores. O segundo é pensar em como lidar com a transição. Muitas meninas raspam o cabelo inteiro e logo já vão cuidando do afro que vem surgindo. Outras – como eu – esperam. Esperei nove meses até fazer meu big chop – o corte que vai tirar todo e qualquer rastro de química do seu cabelo. Eu já tinha um blackzinho quando o cortei mas os noves meses duraram uma eternidade: utilizei coques, texturizações, lenços, penteados, box braids… A criatividade manda!

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Foto: Afropunk Festival 2014

Eu descobri que ser diferente não é ruim e devemos celebrar nossas diferenças. Vamos afrontar! Amar nossos cacheados, nossos crespos, nossos lisos, ondulados, nos amar. Buscar nossas raízes, nossas essências pode ser algo demorado porém é libertador!

Luana Helena Uessler
POR Luana Helena Uessler

18 anos, cursa língua e literatura inglesa, feminista negra, apaixonada por viagens e cachorrinhos,

  • Susany Oliveira

    Ai meu Deus, que texto incrivel, me vi em cada parte desse texto enquanto lia. Passar pela transição não é facil, no meu caso eu não tive tanto apoio dos meus pais, ja minha irma me incentivou bastante e me vi cega e surda para as pessoas que me criticavam. Me sinto outra mulher