Relacionamentos abusivos em amizades: Parte 1

Comportamento

Muito se fala em relações abusivas dentro de relacionamentos amorosos conjugais. Sabemos da importância em colocar esse tipo de abuso em pauta, pois é dele que uma graaaande parte do sofrimento emocional feminino é decorrente. Mas, e quando os abusos vêm de onde menos imaginamos? E quando os comportamentos abusivos partem daqueles que chamamos de amigos? É sobre isso que falaremos a seguir, focando na história real de quatro jovens mulheres que passaram por isso, e após muito sofrimento mental, decidiram se abrir com a gente. Conheçam as histórias de Nicolli, Duda, Cella e Mila (nomes fictícios).

“Houve um período em que eu fiquei doente. Eu engordei trinta quilos. E tudo o que eu escutava dela era que eu tinha que ir na casa dela, que ela não viria aqui me ver, porque tudo o que estava acontecendo comigo era frescura minha e que ela precisava de mim para desabafar sobre os problemas dela.”

Foto: Vivienne Mok

Foto: Vivienne Mok

Nicolli e Fernanda eram melhores amigas desde a infância. Até mesmo as famílias das duas eram próximas, devido a amizade de ambas. Nem mesmo o fato de terem estudado em escolas diferentes durante muito tempo, era capaz de afastá-las. Apesar da forte amizade, Nicolli sempre abdicava de suas próprias vontades para fazer o que Fernanda queria que ela fizesse, e por ser muito jovem na época, não se questionava sobre estar anulando a si mesma.

“Eu achava que era o jeito dela. Ela era assim mesmo.” Ilustra Nicolli.

Quando Nicolli mudou de escola e começou a ter outras amizades e a perceber suas próprias vontades, Fernanda ficou altamente enciumada. Até então, tudo bem, né? Existe ciúme em todas as amizades. Acontece que Fernanda sempre teve diversas amigas e Nicolli não estava inclusa nesses ciclos. Mas quando era Nicolli que estava fazendo novas amizades, um mal estar muito grande era formado na relação das duas. Como se não bastasse, Fernanda se demonstrava egoísta em relação aos problemas de Nicolli, como se ela não tivesse o direito de se abrir.

“Eu nunca conseguia compartilhar meus problemas com ela ou desabafar, porque apenas o que dizia respeito a ela importava. Nunca era sobre mim. Apenas sobre ela, e eu aprendi durante todo aquele tempo, que se havia alguém errado na história, esse alguém não era ela.“

Demorou muito tempo para Nicolli percebesse que Fernanda abusava de sua amizade. Todos os comportamentos de Fernanda, pareciam – propositalmente – uma tentativa de ofuscar Nicolli, até mesmo quando haviam garotos envolvidos.

“Quando ela começou a namorar, me apresentou um garoto por quem me apaixonei. Mas, ainda assim, mesmo namorando, ela demonstrava interesse no garoto por quem eu era apaixonada, e ele me deixou quando percebeu a possibilidade de ficar com ela. Eles nunca ficaram, mas até hoje ele faz tudo o que ela quer. Deixei quieto, porque jamais iria permitir que um homem interferisse na nossa amizade, mas sofri muito.”

Nicolli sempre saía prejudicada, sem entender que algo estava errado naquela relação, e foi preciso que pessoas externas à amizade das duas manifestassem suas opiniões para que Nicolli passasse a compreender melhor o que acontecia.

“Quando eu estava pronta para mudar de cidade porque havia passado no vestibular, saiu o resultado da USP, e ela não havia passado. Nesse dia, fiquei ao lado dela, que estava na fossa. Ela não me deu parabéns pela minha conquista, e parecia que todas as pessoas ao redor também se esqueceram que eu havia passado no vestibular.”

Quando Nicolli mudou de cidade, fazia um grande esforço para visitar seus amigos e familiares nas oportunidades livres que tinha, nos finais de semana. Fernanda, por sua vez, irritou-se mais uma vez, revelando um lado tão possessivo que chegou a surpreender Nicolli. Fernanda não gostava da possibilidade da “amiga” visitar os pais, os outros amigos e o namorado. Acreditava que o tempo livre de Nicolli tinha que ser dedicado a ela e somente a ela.

Foto: Vivienne Mok

Foto: Vivienne Mok

“Ela dizia que não viria me visitar, porque EU é quem deveria visitá-la. Eu não podia ver minha família, pois tinha que usar todo o meu tempo para estar com ela, se não ela ficava com muita raiva. “

Um ano depois que Nicolli mudara de cidade, Fernanda decidiu prestar vestibular na mesma cidade em que a “amiga” estava morando. Assim, mudou-se para o apartamento de Nicolli e passaram a morar juntas.  Mesmo após tantas demonstrações abusivas de ciúmes, Nicolli relevou os comportamentos de Fernanda e a aceitou do seu lado.  A partir de então, Fernanda usou do fato de ambas morarem juntas para inventar mentiras para a própria família, mentiras que diziam respeito à integridade moral de Nicolli.

“Quando as mentiras dela vieram à tona, ela me xingou de tudo o que você possa imaginar. Ela disse que eu fazia tudo errado, e que eu só fazia merda da minha vida. Eu sofri, tanto, tanto… Era como se eu estivesse em negação, porque apesar de tudo, estávamos sempre juntas. Eu sofri muito. E logo depois, descobri que ela e a mãe dela estavam espalhando mentiras sobre mim pela cidade.”

Foi só a partir dessas mentiras que Nicolli conseguiu se desvencilhar de Fernanda. Foi preciso um enorme sofrimento mental e uma anulação dos próprios sentimentos até que Nicolli conseguisse perceber que Fernanda a manipulava, e a usava para conseguir o que queria. E mesmo com tantos motivos para superar esse trauma, Nicolli sofreu muito, pois desde criança havia sido ensinada a correr atrás de Fernanda; havia sido ensinada que a bela Fernanda estava sempre certa, enquanto ela fazia tudo errado.

“Passei por um luto imenso. Perdi quem eu acreditava ser minha melhor amiga. É muito ruim quando perdemos uma pessoa que ainda está viva. “

Mesmo quando Nicolli cortou a amizade, Fernanda ainda a procurou pedindo desculpas, dizendo que tudo seria diferente. Mas, depois de tudo, Nicolli não acreditou. Fernanda estava com problemas no namoro, e mais uma vez, procurara Nicolli para servir-lhe de apoio. Nicolli não aceitou; manteve sua postura em manter-se afastada da ex melhor amiga.

“Foi muito difícil. Estou me reconstruindo do zero. Estou pegando algo que não existia, pois ela está em todas as minhas memórias até então. Mas acredito que está sendo muito bom, pois estou investindo em amizades que me fazem bem.”


Será que em amizades verdadeiras, pautadas no respeito, temos que nos submeter a situações que nos diminuem?

Continua…

Parte 2

Parte 3
POR Maria Luísa Lembrança

Psicóloga e escritora, ainda tenta pagar de fotógrafa e ilustradora. É apaixonada por artes, animais, movimentos de contracultura e umas coisinhas meio diferentes, tipo fotos antigas de desconhecidos e janelas alheias. Leitora e cinéfila assídua, ama filosofia, a cultura gótica, os anos 90 e um papo-cabeça, mas não dispensa uns bons drinks regados a bobagens e gargalhadas. ;)