Precisamos falar sobre diferenças

Comportamento

Quando eu tinha 12 anos, eu percebi que eu era diferente. Eu percebi que eu queria ter o cabelo diferente das minhas amigas, que eu queria ter piercings e queria me tatuar. Percebi que eu não queria usar só vestidos os tempo todo e sapatilhas. Quando eu tinha 12 anos eu descobri, sozinha, que eu era minha, que meu corpo era só meu, e que ele era uma das únicas coisas que eu podia mudar o quanto eu quisesse, da forma que eu quisesse. Mas o que ninguém me contou é que isso geraria tantos problemas. Esse é um texto pra todo mundo que já se sentiu diferente.

tumblr_l436409o8z1qap9gwo1_500_large

Eu estava em fase de mudanças. Tanto física quanto mental. Meus amigos estavam mudando, mas de alguma forma, eu sempre senti que eles estavam seguindo uma direção que não era a que eu queria seguir. Não existe direção certa e errada, esse é o ponto. Existem pessoas diferentes e escolhas diferentes com gostos diferentes. E tudo isso é o que acaba nos fazendo pessoas completamente diferentes umas das outras, mas aparentemente, quando eu era menor, eu não entendia isso. Eu queria mudar minha aparência, e meu primeiro problema foi em casa. Era difícil pra minha família aceitar que eu, sempre tradicional, queria de uma hora pra outra ter o cabelo azul, parar de sair “bem-vestida” e usar um piercing no nariz. Mas foram os primeiros a me entender do jeitinho deles. Não tiro a razão deles, é da nossa cultura ver pessoas assim como problemáticas, e na época deles então nem se fala… Depois tive problemas na escola. Fui vista por vários professores como uma má influência, assim como por pais de amigos meus de anos. Fui chamada de sapatão, de drogada, de mal educada, louca e vários outros adjetivos, isso porque até aí eu só tinha um alargador na orelha e um corte de cabelo um pouco diferente.

Fui crescendo, e aos poucos, todos aqueles adjetivos entraram nos meus ouvidos e trouxeram pra mim a impressão de que eu era todas aquelas coisas. Aí bateu a famosa crise existencial e eu não sabia mais o que fazer. O que eu podia ser se o que era certo eu não gostava e o que eu gostava era claramente errado? Eu não me aceitava mais. E foi isso que tiraram de mim, a única coisa que não podiam ter tirado: minha identidade junto com meu amor próprio. Eu vivi um tempo nessa de me segurar, de tentar seguir um padrão imposto pela sociedade, um padrão no qual eu claramente não fazia parte. Eu fiz todo mundo feliz sendo assim, menos eu mesma.

Quando eu fiz 16 anos percebi que eu não precisava daquilo. Que o que eu tinha de mais valioso era o que só eu tinha. Que ser diferente não era mais diferente. Que o grupo aonde eu me encontrei contava com pessoas com cabelos de todas as cores e todos os tipos, com e sem tatuagens, com piercings, que se vestiam do jeito que queriam, e essas pessoas me trouxeram pra uma realidade nova, aonde eu pude me aceitar e ver que errado era não ser eu mesma.

Hoje com 18, tenho meus piercings (desculpa mãe, eu sei que os furos ainda te incomodam), tenho meu cabelo verde que muda toda semana, uso as roupas que quero, sou tatuada e me amo assim. Se as pessoas me olham na rua? Olham. E eu vejo como um elogio na maioria das vezes. A quantidade de elogios que recebo por ter o meu estilo é muito maior do que as críticas, que eu simplesmente ignoro. Hoje eu me amo, e eu consegui mostrar pra quem me ama que o que importa é quem eu sou por dentro e como eu me sinto em relação o que eu sou por fora. Talvez seja o maior clichê da história, mas quem se importa? É a mais pura verdade.

encora

A minha dica, e tudo que eu quis dizer com esse post é isso: Se ame. Se permita ser o que é. Não tenha vergonha e não sinta que está errado. Porque não existe certo e errado. E um dia, as diferenças vão ser vistas por todos só como mais uma característica, e não esse grande tabu. Eu perdi muito tempo da minha vida tentando ser feliz pelos outros, até perceber que eu só podia ser feliz me permitindo ser. E pra isso, eu tive que encarar todo mundo e dizer: “Eu sou assim. E não vou mudar. Eu escolhi ser assim e isso não é problema de ninguém além de meu. Isso não me faz ter menos valor, e se você pensa isso, eu sinto muito.”

E à quem disse que eu não poderia ser quem eu sou e ser alguém na vida: eu posso. Todos podem. A aceitação de si mesmo é um processo lento e até mesmo doloroso pra algumas pessoas, mas o fim dele te dá melhor sensação do mundo.

POR Mallu

Pseudo escritora, viciada em arte com um gosto especial por Van Gogh. Não consigo ficar em um lugar só e amo viajar. Tento colocar meus sentimentos em palavras, nunca durmo o suficiente, gosto de tirar fotos de tudo. É raro eu não estar escutando música, mudo meu cabelo quase com a mesma frequência que mudo de roupa e eu sou mais um monte de coisas que eu não sei explicar.