Lobos em pele de cordeiro

Comportamento
Nota sobre sexualidade

Era extremamente difícil definir se eu estava afim de fazer sexo ou se eu me sentia pressionada. Para mim, sexo era algo que eu devia fazer, não que eu queria fazer.  Eu devia gostar, né? Digo, não é normal não querer transar… Não é?

Minha vida sexual não começou com o melhor exemplo. Perdi minha virgindade apenas para tentar segurar um relacionamento, não por prazer próprio. Não me sentia pronta ou segura. Não queria perder a virgindade com aquele cara, mas perdi. Perdi, também, um pouco do meu amor-próprio naquele momento, e isso se arrastou por anos.

Não sentia prazer fazendo sexo. Talvez pelo egoísmo dos caras de se preocuparem apenas com o próprio prazer ou pelo fato de que eu nem queria estar lá. A sociedade me falava que sexo era o máximo. Que todo mundo deveria fazer. Que é uma montanha-russa de sensações. Entretanto, tudo que via era o teto do quarto enquanto pensava quando aquilo acabaria.

Até conhecer meu namorado tratei o assunto da forma mais superficial e banal possível. Sexo era assunto para impressionar os caras, seduzir. Nunca era sobre mim, mas sobre eles. Uma ferramenta para me sabotar, me objetificar, apenas para o prazer alheio e para impressionar alguém. Uma obrigação por ser mulher.

No meu atual relacionamento, nosso foco passa longe de ser sexo. É carinho, é amor. É ver filmes numa tarde chuvosa recendo cafuné. E o sexo? É fruto de tudo isso. Dedicação, amor, carinho, intimidade. Pela primeira vez entendi que não preciso usar meu corpo para atrair alguém. Agora, conheço alguém que se preocupa com meus sentimentos tanto quanto o meu prazer e foi com a ajuda dele que comecei a recuperar o meu respeito e amor próprio, percebendo que não precisava da sexualidade para impressionar alguém.

Posições de poder e fetichização da vulnerabilidade

A minha história começa com quinze anos. Quando era adolescente, surpreendentemente, recebia mais cantadas do que com vinte e poucos anos. Nunca tive um corpão, minhas curvas começaram a aparecer aos vinte anos. Até lá, sempre fui reta e com o corpo e rosto infantil. Minhas fotos na internet eram retratos óbvios de uma adolescente.

Nessa idade, era fã de vários famosos. Mandava mensagem no Twitter para vários no pior estilo “vemk gatim”. Igual a gente ainda faz hoje em dia com o Justin Timberlake, sem esperança de dar em algo. Apenas uma brincadeira boba.

Certa dia, essa brincadeira foi correspondida.

Vejamos bem: perdi meu BV com quatorze anos. Aos quinze anos, nem sonhava em sexo, tinha até repulsa sobre o assunto como maior parte dos adolescentes envergonhados. Aos quinze anos, usava calça rosa, pela moda do Restart, e chorava sempre que ouvia o clipe da minha banda preferida na MTV. Aos quinze anos, achava legal ter um Chuck Bass, romantizava Lolita e achava Mallu Magalhães e Marcelo Camelo um casal inspiração.

Marcelo Camelo com trinta anos assumiu um relacionamento com Mallu Magalhães, de dezesseis anos, em 2008.

Marcelo Camelo com trinta anos assumiu um relacionamento com Mallu Magalhães, de dezesseis anos, em 2008.

Com quinze anos, comecei a conversar com um famoso bem mais velho. A conversa nunca passou de flertes. Obviamente, tinha medo de encontrar o tal cara e não queria de fato ficar com ele ou fazer sexo tão nova.

A minha explicação para ter alimentado a conversa é simples: que garota adolescente não acharia o máximo um famoso dando em cima dela? Que garota não ia querer contar para as amigas a situação com o ego nas alturas? Que garota não idealizaria um príncipe encantado famoso que te resgataria da sua vida monótona? Que garota não se sentiria inferior à esses caras?

A questão problemática é que não vejo nenhum motivo para um homem pedir fotos sensuais (que nunca foram enviadas) para uma adolescente com corpo infantil fora um fetiche totalmente problemático. Esse fetiche existe porque a sociedade alimenta a pedofilia.

Eu era um pedaço de carne para ele. Apenas mais uma menina que seria usada. Ele abusava da sua posição de poder para atrair meninas ingênuas e mais novas.

A culpa não é sua

Não existe isso de que mulheres amadurecem mais rápido, a gente só é obrigada a passar por situações que nos pressionam à agir como adultas. A sociedade nos considera mulher com 16 anos. A sociedade diz que estamos prontas para fazer sexo e lidar com as consequências. A sociedade nos chama de vadia, puta, piranha, mas o homem nunca faz nada de errado. O homem até perto de se tornar um idoso é taxado como imaturo perante à mulher. O homem quando transa com várias e namora alguém mais jovem, é galã.

Isso é pura desculpa para encobrir pedofilia e abusos. 

“Ah, mas ele é homem”.

Após ter perdido a virgindade, fiquei um ano sem conseguir pensar em sexo por repulsa. Surgiram dois homens famosos com o dobro da minha idade, logo, a oportunidade de aumentar o meu ego novamente e contar para minhas amigas que , esses caras que muitas meninas queriam, me querem. Mal sabia que eles faziam o mesmo com várias outras.

Não falarei sobre a situação em detalhes porque não tenho coragem. Passaram-se quase quatro anos e ainda me sinto insegura, vulnerável sobre o ocorrido. Se eu falasse, as chances de me prejudicar seriam mais prováveis do que prejudicar o homem. Diriam que pedi, que queria, que deixei. Mesmo bêbada, mesmo sem sentir nada, mesmo chorando. Diriam que pedi.

Mulher bêbada não está dizendo sim. Pessoas bêbadas não sabem nem direito o que estão falando. A facilidade dela com a situação não justifica você abusar do seu corpo. Não justifica você falar que ela topou.

Se eu queria? Honestamente, não. Era uma adolescente insegura, envergonhada e despreparada. Quatro anos depois, já amadureci o suficiente para falar que não sabia o que eu estava fazendo na época. Não sabia de nada, mas o cara, entre seus 40 e poucos anos, sabia.

A responsabilidade não foi minha. Só queria impressionar minhas amigas conversando com um cara famoso. Só queria talvez no máximo da situação dar um beijo. Não queria ser abusada e que tirassem à força o meu amor próprio de mim.

Sobre Laércio e famosos

Recentemente foi noticiado que o Laércio, ex-BBB, estuprou uma pré-adolescente. Me admira que, após tudo dito no BBB, ainda se chocarem com essa notícia, mas é que famoso é imaculado, sabe? Até quando diz em TV aberta que embebedava meninas para beijar, a gente finge que não ouviu. Quem falar que ele está errado é louca, não é, Ana Paula?

“O importante desse episódio é salientar que qualquer pessoa que se sinta abusada tem o direito de denunciar. Se informem, conversem com familiares e amigos, não se sintam acuadas. Muitos são taxados de loucos por exprimirem sua opinião, por denunciarem um abuso, agressão. Loucos são aqueles que não querem enxergar que deixam vítimas ainda mais acuadas e agem de forma preconceituosa. Não a culpalização da vítima de abuso sexual.” Diz Ana Paula, em entrevista ao EXTRA.

Com ainda dezoito anos, recebi uma mensagem privada de um “galã” da televisão. Ele dava em cima de mim, ele provocava, ele corria atrás. Ele tinha também o dobro da minha idade, estava em um provável relacionamento e nem isso o impedia.

Entretanto, a Sabine adolescente ainda achava isso o máximo. Era um famoso. Ele, sendo superior à mim, me queria. Ia deixar ele me mandar mensagens e ia responder, afinal, era o mínimo que podia fazer, pensava.

Fiquei sabendo de casos similares com amigas minhas com o mesmo homem. Todas elas com a minha idade. Foi aí que eu comecei a perceber que isso não deveria ser normal. Que esse homem aproveitava da sua situação para abordar meninas e que isso era bem aceito na sociedade.

Groupies, romantização de homens famosos e a procura do Príncipe Encantado

Posso falar por experiência própria que eu romantizava homens famosos. Na minha adolescência, era dona, com amigas, de uma página no Facebook que romantizava ao extremo o termo “groupie”. Lia história sobre homens que abusavam de mulheres e sentia inveja delas, sem perceber o claro abuso. Queria estar lá sendo beijada por caras famosos que as pessoas pagam para estar no show. Queria sentir que era importante também, mas eu não era e nem seria. Achava que eles se tornariam o grande amor da minha vida. Era ingênua, como qualquer adolescente, e os homens se aproveitam disso.

Existem livros romantizando relacionamento com famosos. Contando como uma garota ficou com um rockstar e encontrou o amor da sua vida. Como ela era sortuda. Essa cultura faz com que meninas acreditem que ser groupie é um status para se vangloriar. Acompanhei inúmeras amigas minhas passando por diversas situações para alcançar tal status, sem se importar o que aconteceria com elas ou quem elas passariam por cima. O que importava era tirar a foto com o famoso e contar para todas as amigas , com detalhes, o ocorrido.

Romantização do termo "groupie": editorial de uma famosa revista para pré-adolescentes.

Romantização do termo “groupie”: editorial de uma famosa revista para pré-adolescentes.

Lembro de acompanhar um namoro de um cara de banda com uma menina jovem, não famosa. Minha mentalidade sempre foi de que ela era sortuda. Lembro de ver a menina abrindo mão da sua vida para acompanhar o cara. Lembro de ver ela levando um pé na bunda e sendo trocada por alguém bem mais velha que ela. “Um brinquedo para ele passar o tempo”, pensei. “Mas ela ainda teria essa história para se vangloriar”.

Já me envolvi com caras de banda e em todas as situações presenciei algo que me machucou e deixou clara a objetificação da mulher. Uma das situações mais triste que presenciei aconteceu ainda em meus dezoito anos. Estava no camarim da banda, confesso que sendo bem tratada pelo dito-cujo. Um dos homens da equipe passou por mim e elogiou minhas pernas com um olhar de um carnívoro olhando para um açougue. Passado o show, voltamos para o camarim, onde vejo esse mesmo homem escolhendo à dedo mulheres da platéia para irem ao camarim e virarem seus brinquedinhos daquela noite.

Nota: não acho errado uma mulher querer ter sexo casual. Acredito sim que às vezes nós não estamos afim de olhar para a cara do homem de novo e ter apenas uma aventura. Mas não é disso que estamos falando. Estamos falando de homens que à cada dia vão escolher uma presa diferente. Que vocês não passam de um orgão sexual. Que objetificam mulheres ao máximo.

Já fui “a outra” de um homem de banda. Já fui a objetificada. Já foi a iludida. Em todos os casos, a culpada perante à sociedade.

Um aviso, de amiga para amiga

Este post é extremamente pessoal. Nunca tive coragem de tornar essas histórias públicas por vergonha ou por medo do julgamento, mas demorei demais para aceitar que a culpa não era minha. Não estou preocupada em escrever da forma mais formal ou deixar o leitor prendido ao texto, mas alertar à todas vocês sobre os perigos que existem.

Não idealizem homens famosos. Cultivem o amor próprio. Não incentivem meninas à cair no papo desses homens e terem a chance de sofrerem abusos. E por último mas tão importante quanto: tomem cuidado.

Estou aqui para ajudar em qualquer situação que precisarem, espero que vocês me considerem uma amiga e que se sintam confortáveis para pedir um ombro amigo. Vocês não estão sozinhas.

Sabine D'Alincourt
POR Sabine D'Alincourt

Futura publicitária de 22 anos. Seu melhor dia foi no show do Green Day e seu objeto preferido é o seu CD do Cobra Starship. Apaixonada por música, moda e fotografia, ainda sonha em morar em New York.

  • Sabine, tu é uma mulher incrível.
    Só queria registrar isso.

  • Vitor Hugo Lopes

    Baita publicacao, Sabine! Coragem sempre.